Crítica | The Stand – A Minissérie Completa

The Stand é uma série que chegou, infelizmente, no momento certo. A segunda adaptação minisseriada do livro Dança da Morte de Stephen King, conta a história de personagens de um mundo pós-apocalíptico, onde um vírus pandêmico dizimou 99% da população mundial.

Claro, não estamos num cenário tão devastador quanto, mas atualmente, vivemos também em um cenário pandêmico com o  tal do Corona Vírus, o que acabou sendo a sorte grande da produção, que tinha terminado suas filmagens um pouco antes do instaurar da quarentena, poder lançar no meio dela e aproveitar a condição natural de “síndrome de Estocolmo” do ser humano, que deliberadamente passou a consumir ou procurar mais obras relacionadas ao tema. Quem dera, no entanto, que a grande demanda a série, viesse também, pelas suas qualidades dramatúrgicas, quase inexistentes.

Não li o livro de King, tampouco vi a versão de 1994, logo, não precisei me ater a comparações com o material fonte ou outras adaptações. Ainda assim, é preciso dizer, e o centro do meu argumento para a catástrofe que é The Stand, está muito relacionado às características do autor da obra original, o que é válido, levando em consideração também que King assina – co-escrevendo – o roteiro de todos os episódios.

Costumo dizer que existem dois tipos de Stephen King: aquele que utiliza preceitos fantasiosos para potencializar suas premissas em esferas de gênero ou estudo social e/ou aquele que se inicia com base em preceitos fantasiosos de forma explícita e os torna o mote principal da história. Pois bem, o segundo, para mim, dificilmente funciona, por serem representações muito obvias roupadas em personalidades excêntricas do debate moral da narrativa. Basicamente, a minissérie é uma extensão disso ao longo de longos e tediosos nove capítulos.

Ao invés de explorar narrativas interessantes que se desdobram a partir da premissa do fim da humanidade, a série vai direto nas suas criações mitológicas, como se a simbologia trazida por eles como personificações já fosse suficiente para complexar as amplas discussões de moralidade vindas de graça pela sinopse. Alias, os três primeiros episódios, conseguem, mesmo acompanhando três distintos personagens, não aproveitar em nada a oportunidade que tem de explorar a caótica do fim do mundo, como natural potencializador de dramas.

Para cada um deles, o apocalipse é algo comum, ou mesmo uma dadiva, já que nas diferentes perspectivas ali apresentadas, muitas colocam em pauta erroneamente os benefícios de ser um dos últimos restantes da humanidade – será que eu sendo o último homem da terra, eu consigo ficar com quem eu gosto? – e dane-se o peso das percas – afinal, minha mãe nem me apoiava como músico mesmo. Tudo bem que é preciso levar em consideração que parte dessa escolha é o que faz a introdução de Randall Flagg (Alexander Skarsgard) e Mother Abigail (Whoopi Goldberg) não parecerem tão forçadas, embora, pelo menos uma delas é pessimamente posicionada na trama, pela inútil troca de temporalidades do início, que confundem mais do que intrigam o telespectador.

Mas não deixa de ser um tiro no próprio pé, visto que o desenvolvimento de personagens é extremamente linear, tal como, o jogo de interesses entre a dupla de mitos, o que torna ainda mais injustificável essa montagem bagunçada de eventos, visto que seria abandonada logo depois. Fora que King parece criar essa fantasia como muleta para os demais desinteressantes personagens terem algo interessante com o que combater, já que ninguém se importa com o passado trágico recente da epidemia, e soam muito tranquilos com a perspectiva do futuro reunidos em uma cidadezinha em que não faltam recursos, nem tem gangues rivais para tomar, nem nada do tipo, era preciso ter algo a gerar conflito, e nesse caso, foram duas representações obvias de deus e o diabo que tentam influenciar no prosseguimento da humanidade, se é para a civilização reduzida, ou a selvageria pecadora descontrolada.

Mas nem mesmo essa temática óbvia é de fato explorada pela série, que gasta três episódios de meio com intrigas a partir de influências de Flagg em certos personagens que já eram em sua natureza problemáticos quanto introduzidos, que não gera nenhuma consequência impactante a nenhum outro personagem.

Ainda que exista alguma tensão ali no núcleo de Harold (Owen Teague) e Frennie (Odessa Young), é muito pouco, com um momento de frontalidade – ela descobrindo o texto que estava escrevendo – e não gerando nada depois – aquela explosão chegou a matar alguém? E a série continua num marasmo completo até o fim, mas ao menos, os últimos três episódios são consideravelmente melhores do que os outros. Vincenzo Natali foi o único dos diretores a conseguir – mesmo sem desenvolvimento anterior – adentrar na moralidade assumidamente mais explicita nas representações com senso consequencial que toma decisões de riscos mesmo que sem impacto.

Ao menos, abre o caminho para um bom último capítulo, que é o único que consegue vender que toda a jornada teve algum ensinamento prático, com Frennie vencendo a tentação e sendo recompensada. Infelizmente, ao parar para questionar toda a firula que foi o caminho até chegar nessa conclusão, é muito pouco recompensador. E olha que nem boto isso na conta de Josh Boone, Bejamin Cavell e equipe de realizadores competentes em maioria presentes na produção, porque há uma nítida falta ou limitação de identidade estilística particular deles na série, provavelmente pelo aspecto reservista de King com suas obras, que em alguns momentos beira flertar até mesmo com universo compartilhado. Não sei dizer até onde isso foi influente, como dito, esse é meu primeiro contato com a obra, mas a sensação é essa. No fim, The Stand, reúne na enésima potência, tudo que há de pior na mente criativa de Stephen King.

E então, sabia todas estas coisas?

Vamos aprender, sempre! Conhecimento é sempre bem vindo. Lembre-se de deixar a sua opinião nos comentários e se tiver mais alguma curiosidade para compartilhar, estamos ansiosos para saber.

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